Não Alinhados#2 Parafina Socialista

Eu vou, eu vou morrer em Angola 

com armas de guerra na mão 

granada será meu caixão 

enterro será na patrulha.

Canto Popular Militar do Exército Popular de Libertação de Angola


O cheiro das caixas com o arquivo de Isaurino aos poucos começou a impregnar as paredes do meu quarto. A certa altura levantava-me todos os dias de manhã cedo e ia trabalhar para um arquivo histórico, em Luanda. Fiz isso durante anos. Na verdade, antes dos filmes, havia os arquivos. Durante essa época, descobri que sinto um certo prazer em chegar a um arquivo todo arrumado, catalogado, onde te são entregues luvas, uma sala sem janelas e um computador com base de dados impecável. Contudo, apercebi-me de uma obsessão ainda maior: o cheiro dos arquivos. Mas não qualquer tipo de arquivo. Neste caso tem de ser um arquivo desarrumado, com papéis soltos, clips enferrujados, caligrafia indecifrável, fotos coladas, rolos por revelar e cassetes com mofo. Tem pessoas que gostam de cheiro de chuva, terra molhada, café, mar ou até lixívia. Eu gosto do cheiro de mofo no papel. 

Como qualquer boa obsessão, esta faz-me mal. Muito mal mesmo, pois infelizmente sofro de asma alérgica. Para enfrentar um arquivo tenho de me encher de anti-histamínicos durante dias. Na minha infância, nos anos oitenta, partilhava o quarto na casa dos meus pais com um enorme armário que continha os álbuns de família, misturados com a colecção completa da obra de Lenine. A minha mãe dizia-me para não mexer naqueles livros, porque eu era alérgico. Até aos dez anos de idade pensei que era alérgico ao líder soviético. Descobri que não no consultório de um médico cubano na Meditex.

- Mamá, ¿a criança tiene alguna alergia?

- Não, doutor.

- Não mente, mãe. Doutor, eu tenho alergia ao Lenine.

A minha resposta foi e continua a ser motivo de gargalhadas em almoços de família. Tem vezes que eu conto esta estória a amigos, desconhecidos ou até em rodagens, para aliviar a tensão do momento e do mundo. Mas até hoje não percebo se as pessoas se riem de mim, da minha mãe, dos angolanos, de Lenine ou do comunismo. 

Uma noite, durante a pandemia, numa dessas longas chamadas zoom com um cineasta da China, colega de júri para um festival de cinema, partilhei com ele a minha alergia ao Lenine. Rimo-nos. Ele contou-me que a CCTV, há uns anos, encomendou-lhe um documentário sobre o famoso grupo do “Laboratório Lenine”, também conhecido como “Grupo do Mausoléu”. Assim se chamava o grupo de cientistas russos que realizaram o embalsamamento do corpo de Lenine, de Estaline, de Neto, de Ho Chi Minh, de Mao, de Kim Il-Sung, de Kim Jong-il e de outros líderes comunistas. O meu colega partilhou comigo que recebeu instruções do seu produtor, um possível agente do MSE (Ministério de Segurança do Estado da China), para tentar captar imagens, áudio ou que formato fosse, da fórmula secreta de embalsamamento deste famoso grupo, que até hoje é responsável pela manutenção dessas múmias comunistas (algumas são socialistas, na verdade). É um verdadeiro segredo de Estado. É como a fórmula da Coca-Cola, diz-me o meu colega chinês.

Os segredos de Estado tornam-se mitos em países como Angola ou a China. São autênticos cofres vazios, lendas populares, elefantes brancos que ocupam o imaginário e o dia a dia do cidadão. Perguntei-lhe qual era o cheiro do corpo do Lenine, se cheirava a mofo no papel.

Não! Tem um cheiro forte, sufocante e ao mesmo tempo vazio. Não dá vontade de espirrar, dá é mais vontade de não respirar.

Confesso que fiquei chocado ao saber dos detalhes deste processo bizarro. O corpo daquele que foi o primeiro líder comunista a ser embalsamado continua lá em exibição, sem vasos sanguíneos ou artérias, sem gordura, com pestanas artificiais, uma rinoplastia vulgo nose job, com carnes feitas de plástico e pele composta por caroteno, glicerina e parafina. Sem falar que, a cada ano e meio, o corpo vai de férias durante umas seis semanas, onde mergulham os restos do Leninismo em banhos de formaldeído, ácido acético, solução de glicerol, peróxido de hidrogénio, acetato de potássio e de sódio. 

Estes “corpos-Estado”, apesar da aparência imaculada, parecem-me nocivos para a nossa saúde e para o ambiente. Fico aliviado que, em 1991, o corpo do primeiro presidente de Angola tenha escapado dessa espécie de tortura póstuma e finalmente encontrado descanso naquele foguetão de betão preso nas areias da Praia do Bispo, em Luanda. 

A segunda quinzena do mês de setembro foi talvez um dos períodos mais conturbados para Isaurino Lisboa no ano de 1979. O que consegui montar daqueles quarenta e cinco dias de luto nacional é baseado em frases soltas em papéis diversos e algumas vezes em relatos pormenorizados no seu diário.

 

Documentos, transcrições e anotações do arquivo pessoal do projecionista e montador de cinema angolano Isaurino Lisboa.

Tripoli (W.C do aeroporto)   11.09.79

Chegamos a Luanda,já passavam das 13. Bafo quente, todos de preto na placa, da cidade vinham choros, desgraça! Os FAPLA que vinham connosco e uns DISA nos puxaram para outro avião (da Taag). Pensei que iam nos desaparecer no Moxico. Pensei na minha irmã. Assim que entrei no avião encontrei-me com o Malaquias. Foi ele que me deu a notícia. O camara nosso Neto… não aguentou. Estamos a caminho de Moscovo. 

 

Tripoli - Moscovo (no ar)                         12.09.79

Montamos a nossa Cine Kodak a bordo. Na verdade, esta ilha é uma mistura de peças de uma Neumade Júnior, uma Cine Kodak, a russa Moviscop e uma misturadora VINIIPRA. Malaquias e o mais velho Paiva trouxeram várias gravações da rádio e bobines de 16mm do camarada presidente para montarmos. Lá à frente alguns membros do DOR do CC. Delegação séria para escoltar o presidente Neto para Luanda. Tudo tem que ser aprovado por eles e antes de regressarmos. Será que a Fatinha sabe onde estou?

 

Vnukovo (na pista)   13.09.79

O camarada presidente morreu às 16h45 de Moscovo no dia 10. Ouvimos a TASS no rádio do Malaquias. Estamos há mais de 12 horas no avião estacionados na placa. Mais velho Paiva está a gravar a narração escrita pelo Lucky Luke e aprovada pelo CC. Só saíram os dirigentes. Os russos do Lenine ficaram o dia todo a trabalhar no corpo do malogrado. Eles também voltam conosco. Um camarada da embaixada em Moscovo (Machado? Furtado?) acompanhou-lhes até ao avião. É DISA?!. Perguntou se já assistimos ao filme americano Apocalypse Now. Falamos que não. Parece que ele assistiu no festival de Moscovo o mês passado, o realizador do filme estava lá e tudo, um tal de Coppola - não conheço. Ele disse que os yankees ficaram bravos. Ele pediu para ver o que já tínhamos montado da “Retrospectiva Biográfica do Guia e Fundador Camarada Presidente Agostinho Neto”. Continuo achar que esse título é longo, mas epá, só tou aqui para ajudar a encontrar imagens. É melhor ficar calado. O DISA sugeriu fazermos uma abertura idêntica ao tal filme americano e usar a música “Luvuvamo” do Teta Lando na retrospectiva  - ninguém respondeu. Saímos ao pôr do sol. 

 

Tripoli - Luanda (no ar)   14.09.79

Cochilei um pouco acordei agora com o Doutor Santos, a andar de uma lado para outro no avião, a olhar para uma cábula e a falar baixinho: E. Tshasov, N. Malinovsky, N. Smaguine, G Riabov, A Vorobiev, V. Fedorv, V. Soura e B. Savtchovk. Vamos chegar a Luanda em 3 horas.

 

Luanda (no ar)                   14.09.79

Terminamos! Os camaradas dirigentes do DOR e CC ficaram satisfeitos com o filme. Colocamos até fotos do tempo da meninice do camarada presidente neto. A voz do mais velho Paiva na narração encaixou bem. Já dá para ver Luanda lá embaixo. Estamos a andar às voltas faz já 30 minutos, muita gente na parte de fora do aeroporto. Um dos FAPLA que ficou a viagem toda ao lado do caixão do camarada presidente, levantou e começou a cantar:…granada, granada será meu caixão/enterro, enterro, será na patrulha./ Eu vou, eu vou morrer em Angola / com armas, com armas de guerra na mão./ Eu vou, eu vou morrer em Angola / com armas, com armas de guerra na mão. Todos nós a bordo seguimos o FAPLA, até os russos. Comandante pede a todos para sentar, vamos aterrar. O choro tímido do comba de Moscovo mudou. O nosso Neto voltou à sua terra, é hora de chorar a sério.

 

(notas soltas e sem data)      

Ligar à Fatinha para avisar que já estou em Luanda.

Equipa: Eu, Malaquias, Tavares, Guida, Vitório, Zeca (?), Isaac, Carlos, Tito, Rebelo, Gita, Gaby, Rosas. Falar com a equipa francesa - 22 73. Eles têm equipamento extra. Guia insigne?

Levar as bobines de Cuba para o camarada Rosas. Camarada Luandino pediu urgente.

Ambrósio me disse que a Fatinha viu-me na televisão durante as cerimónias. Ir hoje sem falta!! 

Parafina, glicerina e caroteno!!

Russos do Lenine bazaram hoje. Falaram que vamos ter Neto perpetuamente. A mim me parece que vamos entrar num comba perpétuo e com cheiro a querosene. 

“…a luz do partido”?! o Lucky Luke é realmente mais rápido que a própria sombra. Fatinha ficou furiosa. 

Arranjar cigarros. Lavar roupa da viagem. Procurar mais velho Paiva. 

Projecção: Hoji ya Henda (hoje),B.O (amanhã); Zona 10 (sábado); Malanje (domingo) Soyo (terça)

Apanhar amanhã às 15h30 grade na casa do mais velho Paiva. Sondar, parece que vai haver mudanças sérias. Mandar telegrama para a Sasa.

Fatinha hoje declamou poema de Neto na subcomissão popular do Prenda. Alguns camaradas ficaram incomodados.

“Eu vivo 

Nos bairros escuros do mundo

Sem luz nem vida

Vou pelas ruas

Às apalpadelas

Encostado aos meus informes sonhos

Tropeçando na escuridão

Ao meu desejo de ser

São bairro de escravos

Mundos de miséria

Bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram

E os homens se confundiram

Com as coisas

Ando aos trambolhões

Pelas ruas sem luz

Desconhecidas

Pejadas de mística e terror

De braço dado com fantasmas

Também a noite é escura.

Encontro com o mais velho Paiva na Biker. Avisou-me que alguns camaradas do movimento de rectificação mencionaram a intervenção da Fatinha no Prenda. Para ela ter cuidado.

Toda hora a passarem na rádio o Substituição Necessária: “Nós seguimos o critério político.” Não confio naqueles 2 dentes de ouro.

por Fradique
Afroscreen | 16 Fevereiro 2024 | Agostinho Neto, arquivo, diário, Isaurino Lisboa, Lenine, líderes, mortos, Moscovo