Arder no Gelo - pré-publicação

Sobre Arder no Gelo
Uma viagem poética em torno de Sebastião Alba, que tem como fundo uma Lisboa interior. Arder no Gelo é a mais recente novela do jovem multipremiado escritor moçambicano Mélio Tinga, fruto de uma residência literária em Portugal. A prosa de Mélio tenta chegar aos confins da alma para descrever o indiscritível. Um livro feito de sensações que pode definir-se numa da suas diatribes: “És como o pássaro que levaste na gaiola, com a decidida intenção de deixá-lo voar (mas está ainda ali, pendurado). Atiraste-te à rua, infestada de tudo que te foi diluindo. Viver a fugir do vento e do sol. Esbofetear o mundo e entrar para esse teu planeta geométrico, poligonal, imóvel.” Arder no Gelo inaugura, juntamente com Ascendentes, de João Paulo esteve da Silva, a coleção LXYZ, d’A Morte do Artista.

**

Estamos à procura do sol, das mãos, pardais. Da água simbólica que escorreu sobre o alcatrão. O navio sumiu entre os dedos dos pés. Aponte-me a nascente, D.! Sei que um poema nunca foi construído usando coordenadas geográficas, mas, se estamos à procura do sol, alguém terá de descobrir onde fica a nascente, alguém terá de levantar-se cedo, antes que as pulgas se movam para fora, antes dos galos arrojarem as cristas. Saberemos, assim, para onde vais e de onde vens, com esse saco opaco nas costas, à margem, imitando um cão rafeiro na manhã irregular de um domingo.

Palavras à mistura com a saliva, tuas palavras se misturam com saliva e com língua, e com os dentes. Atravessam o gargalo a força, empurradas por dois dedos subtis instalados no tecto da boca. Tua língua tem a humidade das tralhas sobre a terra contagiada pela estiagem. A força com que atravessas a solidão é sombra incendiada a fósforo ou isqueiro que nunca compraste do teu próprio bolso, nunca foi do teu suor. Diz-me uma só coisa que tenha sido do teu suor, apenas uma! Falta-te coragem, eu sei, porque, ou te esqueceste completamente, ou nunca houve, foi tudo do suor, do sangue, e dos gemidos dos outros, tu aí, um espectador à janela, observando o arco-íris se desfazer em nuvens.

Desseguiste, deslocamento de terra, das pedras, moveste-te do centro onde as vozes que te abrigam gravitam, em direcção ao vento crepuscular, agreste, denso, instável, que te arremessou contra uma multidão de troncos secos, que nunca quis que tuas mãos, que teu crânio se embatesse contra elas. Ainda que aparentasse que a 4ª Sinfonia de Brahms seria o que te ia levantar dessa espessa nuvem foscada e silenciosa, foi a crença nocturna de um poeta que acreditava que podia transformar o mundo atirando amendoim torrado nas margens do rio ou atravessando um túnel descalço no meio da escuridão espessa, cruzando dois feixes de luz que nunca teve coragem de olhar ou o tempo fora escasso, D., noite invasora, como um deus instantâneo, caíste. O negrume da noite consumiu-te por toda eternidade, nestes céus sujos da terra.

Ouves o eco? O eco do choque da matéria viva. Ou o susto do pássaro que saltou aflito da gaiola para observar o desmanchamento da corda com o gargalo preso por entre o arame, o fim da canção lasciva da tua boca. Ouves o eco? Não! Tu não ouves esse eco, D., tu que mandaste tudo para a merda com o dedo erguido em seco e com firmeza. Tu, incapaz de te equilibrares entre as pedras, não. Tua audição afinada nunca ouviria esse eco obtuso, neste cruzamento sinuoso do qual teus olhos nunca foram capazes de ver, matéria em decomposição lenta, desfrutando dessa extinção tardia que te entrou pelos bolsos da camisa.

Ouves o eco? Não! Tu, com aquela voz importuna, e que nunca te apeteceu observar uma sombra que não era tua, uma saliva que não caísse da tua boca, um grito que não viesse do ar dos teus pulmões. Tu não podes ouvir esse eco, D.! É demasiado alto para o ouvires, é demasiado próximo. Tu não consegues ouvir esse eco.

por Mélio Tinga
Mukanda | 26 Fevereiro 2025 | literatura moçambicana, Mélio Tinga, moçambique, Sebastião Alba