O que está a acontecer na Guiné-Bissau?

O que está a acontecer na Guiné-Bissau? O que é claro é que a situação para a população é aguda e a miséria é profunda. Golpe ou não, as estruturas de realpolitik permanecem intactas: enraizadas num exercício vertical de poder onde as salas internas do poder permanecem trancadas e fora do alcance daqueles que esperam por um comboio algures fora de Lisboa. «O futuro?» diz um guineense a caminho de um trabalho diário no sector da construção e ri. «Estamos a falar de África —e o único futuro que alguma vez tivemos é o que está debaixo dos nossos pés.»

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09.01.2026 | por Klas Lundström

Di Povu Pa Povu: mobilizar sem organizar?

Di Povu Pa Povu: mobilizar sem organizar? Perante um membro do partido, o povo cala-se, torna-se «carneiro» e manifesta alguns elogios ao governo e ao dirigente. Mas, na rua, pela noite, no sossego da aldeia, no café ou junto do rio, ouve-se essa amarga decepção do povo, essa desesperança, mas também essa raiva contida. (Fanon, 1961: 189)

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09.01.2026 | por Apolo de Carvalho e Alexssandro Robalo

Escrever a hospitalidade radical da dança

Escrever a hospitalidade radical da dança Esse espanto é acolhido como força metamórfica: transforma quem vê, mas também orienta o modo de investigar. Como escrever a partir de forças sentidas? Como integrar o espanto num método singular capaz de dar lugar ao estudo e à construção de uma linguagem crítica? Como a própria constata, a autora deixa-se atravessar pela experiência da obra numa trajetória que descreve como um movimento do Espanto ao Estudo. O espanto move e comove, põe forças em ação e gera a vontade de mantê-las vivas ao longo da escrita, evitando a desvitalização da experiência. Daí a insistência numa escrita que não fixa: quando Balona identifica a obra de Freitas como estruturada pelos termos “abertura, impureza e intensidade”, percebe-se que não se trata de categorias estanques, mas de palavras que ensaiam entradas possíveis na complexidade desta obra coreográfica.

Palcos

08.01.2026 | por Liliana Coutinho

Baralho de Cartas 2

Baralho de Cartas 2 Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”? Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante.

Mukanda

07.01.2026 | por Marta Lança

A América Latina não é um peão sem vontade

A América Latina não é um peão sem vontade O que aconteceu na Venezuela ultrapassa o campo da disputa política interna e entra, de forma explícita, no território do imperialismo cru, sem disfarces, sem pudor e sem qualquer compromisso real com a democracia. O discurso de Donald Trump, ao anunciar que os Estados Unidos iriam “governar” a Venezuela e assumir o controle de seu petróleo, escancarou aquilo que a América Latina conhece desde que foi invadida pelos europeus: sempre foi sobre recursos, comércio e lucro.

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04.01.2026 | por Gabriella Florenzano

Baralho de Cartas 1

Baralho de Cartas 1 Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.

Mukanda

02.01.2026 | por Ricardo Norte

Balada da urzela

Balada da urzela A urzela, ou roccella tinctoria, é um líquen que cresce nas rochas e falésias das orlas marítimas das ilhas da Macaronésia, um conjunto de quatro arquipélagos vulcânicos do Atlântico Norte. Quando a urzela, que se assemelha a um pequeno arbusto verde-acinzentado, é triturada e mergulhada numa mistura de água quente e urina humana fermentada, produz uma substância corante de cor vermelho-violácea. As suas tonalidades vivas e brilhantes foram durante séculos muito apreciadas na Europa, onde as roupagens de cor púrpura eram, desde a Antiguidade, um sinal de estatuto e privilégio. Por essa razão, a história das relações entre a urzela e os humanos encontra-se manchada por inúmeras atrocidades.

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31.12.2025 | por Teresa Castro

A Encenação Cultural (O Globo)

A Encenação Cultural (O Globo) “Deixei de poder carregar, de mão em mão, o leite da cabra, vindo das montanhas agrestes. A couve. Brassicaceae. Para alimento dos órfãos. O milho. O arroz.O feijão e o tomate, para o manuseio das mulheres. O algodão, para o aconchego dos filhos. A cabeça de boi, para pagamento das dívidas e os reservatórios de combustível… E até o veneno alegre da embriaguez, que me tirava da lucidez, deixou-me, dia após dia, por causa da miséria do meu tempo.”

Mukanda

31.12.2025 | por Indira Grandê

"I am not a monster": a desconstrução de um inimigo público

"I am not a monster": a desconstrução de um inimigo público Nas expectativas de muitos imigrantes, a Europa era um lugar construído sobre valores que priorizam a dignidade dos homens e das mulheres, um lugar acolhedor da diversidade, um lugar de segurança e que garante prosperidade material por via do trabalho para todos. O que se mostra, para já, uma parede difícil de ultrapassar.

Palcos

20.12.2025 | por Zezé Nguellekka

Fomes coloniais, arquivo e silenciamento: Portugal colonial e a (necro)política da vida

Fomes coloniais, arquivo e silenciamento: Portugal colonial e a (necro)política da vida As fomes moldaram a história de Cabo Verde, a nossa identidade e a forma como nos relacionamos com a materialidade da vida. Contudo, persiste ainda uma enorme produção de silêncio em torno deste facto. Não será exagerado dizer que interiorizámos profundamente a censura dos tempos coloniais, quando era proibido usar a palavra “fome” ou indicar “inanição” como causa de morte nas certidões de óbito.

Afroscreen

16.12.2025 | por Apolo de Carvalho

Cochinilha, o vermelho-mexicano que expos o sistema colonial e revolucionou a arte europeia

Cochinilha, o vermelho-mexicano que expos o sistema colonial e revolucionou a arte europeia Um inseto dos catos do México colonial uniu durante séculos a arte, a economia imperialista e o poder europeu na sua forma mais ostentosa. Fonte de um pigmento forte e revolucionário, a cochinilla é uma metáfora mais dos sistemas que antes e hoje moldam as dinâmicas globais de exploração. Este pequeno inseto enriqueceu impérios, vestiu reis, militares e cardeais, inspirou artistas. Vermelho vivo reduzido a produto de luxo, despido sem pudor do valor simbólico que representava para a espiritualidade e cultura dos povos mesoamericanos.

Jogos Sem Fronteiras

15.12.2025 | por Pedro Cardoso

A Roupa Nova de Luanda

A Roupa Nova de Luanda A visão do governo do MPLA pós-Neto é de criar uma capital à la Dubai, capaz de atrair turismo, negócios e «massas de estrangeiros para a cidade, transformando-a num lócus onde a mão invisível do capitalismo consequentemente elevaria os angolanos da pobreza», enquadra-se nesse contexto. Nessa visão, o moderno, fresco e recém-inaugurado aeroporto Dr. Agostinho Neto funciona como os braços abertos e o sorriso acolhedor de Luanda. Consequentemente, o aeroporto permite que políticos e cidadãos considerem essa peça moderna de infraestrutura como sua própria, não vinculada ao colonialismo português, à arquitetura colonial ou às cicatrizes físicas dos colonos-ocupantes portugueses, nem ao cemitério não oficial de um império moribundo.

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15.12.2025 | por Klas Lundström

Abram as janelas, já é tarde

Abram as janelas, já é tarde Somos nós, mulheres, que escrevemos certo por linhas tortas. Ninguém segura um conhecimento desses, dentro e fora do corpo. Também somos nós que, como lembra a filósofa Silvia Federici, carregamos o PIB do país nas costas com todo o trabalho não remunerado da reprodução e do cuidado, provendo mão de obra barata ao capitalismo. Se as mulheres pararem, o mundo também para. É por isso que ou o futuro é feminista, ou não há futuro. Por isso, rapazes, não dá mais para dizer que nunca ouviram falar e dar uma risadinha sem jeito, ou continuar dizendo bobagem nas revistas e na internet como fez o outro, o filho de músico, apenas mais um homem incapaz de se implicar como motor de mudança, morto de medo de perder seu palco e seus privilégios enquanto as mulheres continuam morrendo como moscas em feminicídios.

Corpo

14.12.2025 | por Carla Mühlhaus

Greve Geral: o direito a existir, participar e transformar o país.

Greve Geral:  o direito a existir, participar e transformar o país. Apesar de o Governo ter qualificado a greve como “inexpressiva”, o país mostrou exatamente o contrário: uma luta expressiva, em que cada corpo presente e cada cartaz ampliaram a força coletiva da contestação. Os cartazes reunidos nesta galeria são testemunho dessa expressividade: ecoam a vitalidade que se multiplicou pelas ruas, a criatividade que brotou nas palavras improvisadas, a crítica mordaz, o apelo ético, a disputa pelo sentido do trabalho e da democracia, a resistência que se afirmou e a imaginação política que ali se projetou. Juntos, constroem um léxico popular capaz de denunciar injustiças, afirmar dignidade e esboçar futuros mais justos. Nesta ocupação das ruas afirmou-se, de forma coletiva e vibrante, o direito a existir, participar e transformar o país.

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12.12.2025 | por Joana Simões Piedade

“Menino, não fala política”: o país que não se cala na obra de Luís Santos

“Menino, não fala política”: o país que não se cala na obra de Luís Santos Os pés e os dedos funcionam como portas de entrada para a complexidade social que envolve o artista e preparam o olhar para além do belo. Os silenciamentos, as amputações das vozes incómodas, sobretudo dos anónimos sem horizonte de futuro, retiram-lhe o sossego. Não é possível falar apenas de amor, beijos ou flores quando corpos suam no alcatrão quente, descalços, em busca de um lugar melhor. São corpos que votaram e, por isso, reivindicam o direito de apontar o dedo a quem lhes deve serventia. É nessa direcção que apontam os dedos indicadores manchados de tinta, símbolo do exercício soberano do voto.

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10.12.2025 | por Eduardo Quive

Ou corremos com os golpistas na Guiné-Bissau ou perdemos para sempre o que (ainda?) resta da nossa dignidade enquanto povo/nação

Ou corremos com os golpistas na Guiné-Bissau ou perdemos para sempre o que (ainda?) resta da nossa dignidade enquanto povo/nação O dilema que hoje atravessa a Guiné-Bissau já não é uma questão de escolher entre duas propostas políticas; há muito que se trata de uma questão de posicionamento entre dois caminhos claros para o país: o da verdadeira transformação política, que exige esforço, lucidez e solidariedade; e o da encenação política, que conduz à servidão, à decomposição moral e à barbárie banalizada.

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09.12.2025 | por Amadú Dafé

A indecência funcional e a violência discursiva na era pós-colonial

A indecência funcional e a violência discursiva na era pós-colonial A indecência política é, por isso, uma forma de analfabetismo moral deliberado. Ela não falha em compreender. Recusa simplesmente compreender, porque sabe que a incompreensão rende mais. E aqui, justamente, um olhar histórico mais longo, como o de Norbert Elias – um sociólogo alemão – ajuda-nos a compreender a profundidade desta regressão. No processo civilizacional, Elias mostra que a sociabilidade moderna assenta na internalização gradual do autocontrolo dos afectos. A boa educação não é ornamento, mas sim uma espécie de tecnologia de convivência. É através da contenção dos impulsos, da modulação da agressividade e da capacidade de adiar a resposta emocional que os indivíduos se tornam socialmente fiáveis. A civilidade é, neste sentido, uma conquista frágil, sempre ameaçada e sempre em disputa. Mas o projecto colonial europeu introduziu uma distorção decisiva que consistiu nos colonizadores exigirem de si elevados padrões de autocontrolo na relação entre pares europeus, mas suspenção desses padrões na relação com os povos colonizados.

Mukanda

09.12.2025 | por Elísio Macamo

Morte, poesia, comunismo - Heiner Müller, trinta anos depois

Morte, poesia, comunismo - Heiner Müller, trinta anos depois Resgatar Heiner Müller trinta anos depois da sua morte é um exercício arriscado. Desde logo porque o mais cómodo será olhá-lo na forma fetichizada de um autor oracular. Como é habitual a propósito da evocação de autores mortos, poderíamos cruzá-lo com o nosso tempo começando cada frase por «Como previu Heiner Müller…». Seria um exercício sem dúvida eficaz para efeitos de validação pelas intelligentsias académicas, literárias ou militantes, sempre prontas a legitimar a sua inércia pela idolatria dos seus mortos convertidos em bonecos de cera. Fazê-lo com Müller seria, no entanto, traí-lo, no mesmo sentido em que o próprio entendia que a sua relação com Brecht só poderia ser crítica. Andar à procura de uma realidade que confirmasse as supostas previsões de Müller não passaria de um exercício vazio, até porque o seu gesto foi precisamente o contrário de uma tentativa de descrever a realidade.

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08.12.2025 | por Fernando Ramalho

Que nuances perfazem relações inter-raciais?

Que nuances perfazem relações inter-raciais? Tudo isto significa que todas as relações inter-raciais são permeadas por hierarquização racial, exotização ou fetichização? Não. Embora colocar o Outro como fetiche ainda seja uma realidade, não acredito que todas as relações inter-raciais partam desses princípios. Existem relações saudáveis, onde as pessoas fazem o caminho de aprender a olhar para Outrem sob novas formas de ser e estar no mundo, sob uma perspetiva humana. Conheço relações inter-raciais onde há compromisso real com práticas antirracistas, com justiça e equidade social em todos os níveis. Compromisso com o amor.

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08.12.2025 | por Leopoldina Fekayamãle

Amanhã é Outro Dia: Anatomia de um Golpe de Estado

Amanhã é Outro Dia: Anatomia de um Golpe de Estado No fundo, a Guiné-Bissau continua a ser governada por aquilo que não vemos claramente: uma sombra persistente que organiza, redistribui e reconfigura o poder conforme os seus próprios interesses. Enquanto essa sombra existir — e enquanto as armas forem a gramática da política — qualquer tentativa de transição democrática plena será sempre interrompida, adiada ou revertida.

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07.12.2025 | por Dosmi Lenov