E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu'leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.
A ler
03.07.2026 | por Gabriella Florenzano
'Quebrar em Caso de Emergência Climática' não é apenas um ensaio sobre alterações climáticas, mas um manifesto político que recusa separar ecologia, capitalismo, colonialismo e democracia, defendendo que o colapso ambiental não é um acidente, mas o resultado de escolhas económicas e relações de poder. O Climáximo é uma das mais provocadoras intervenções recentes sobre justiça climática em Portugal, pela sua capacidade de transformar conhecimento científico em imaginação política e convocação para a ação coletiva.
A ler
03.07.2026 | por Marta Lança
A partir das entrevistas, dos dados recolhidos para o inquérito e da observação das dinâmicas interpessoais que se impunham nas bases guerrilheiras, Andrade começou a escrever um ensaio intitulado «Sociologia da guerra e ideologia», que em algumas das versões reunídas neste volume numa edição crítica, também leva o subtítulo de «Contribuição ao debate sobre a crise actual do MPLA». Embora inacabado, o ensaio, especialmente na sua primeira parte – a mais desenvolvida –, constitui uma reflexão lúcida sobre os problemas que alimentaram a crise do movimento, numa tentativa de fundamentar a práxis do MPLA numa compreensão profunda da realidade social subjacente.
Mukanda
02.07.2026 | por Elisa Scaraggi
A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno... Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias.
Mukanda
01.07.2026 | por Ricardo Norte
Chamo a isso o "princípio da mais-valia inversa", os nossos compatriotas são capazes de gastar muito dinheiro numa jantarada mas incapazes de gastar mil escudos para comprar um livro, são manhentos.
O Tchalé e o Vasco escreveram uns textos sarcásticos que serão acompanhados pelo novo género musical: a merdrada (vamos lançar não pedradas mas rolos de merda neste charco). O altifalante vai destilar passagens do nosso manifesto que diz o seguinte: "nós sonhamos com uma república moderna de Cabo Verde em que deixará de haver bláblólogos e bláfilólogos" (entenda-se gente que passa o tempo a dizer blá-blá e uma vez que o estado da nação é um bluff...), "em que o cidadão não será mais tratado como pedacinho de merda" (um indivíduo vai a um hospital ou a qualquer repartição pública e é assim que é tratado), "onde o dirigente será um verdadeiro cavalheiro" (que assume a palavra dada, pois a palavra de um cabo-verdiano vale menos do que um...micrograma de merda). Isto está muito mau aqui, ninguém se preocupa com a palavra dada, é uma coisa horrível.
Cara a cara
30.06.2026 | por Marta Lança e António Tavares
Portugal, como tal, não existe. Toda a nação é uma noção, não mais do que isso, uma construção cultural sedimentada pelo tempo, que ocorre apenas à força de acreditarmos nela. A terra, essa, persiste e resiste, em larga medida indiferente às transformações humanas, ainda que muito afectada por elas — e, agora, dizem, a um ponto que muitos garantem ser irreversível, talvez até extintivo para a espécie humana. Não são portuguesas as andorinhas ou as gaivotas e as águias-pesqueiras, nem as nuvens e as tempestades, os equinócios, as estações do ano, e a terra e o mar só são nossos porque assim se convencionou que o fossem, o que depende de nós, sem dúvida, mas também ou sobretudo dos outros, que aceitam e reconhecem a lusa «soberania» sobre este pedaço de mundo.
A ler
25.06.2026 | por António Araújo
Colecionar implica selecionar, retirar do uso, preservar, ordenar e expor. Na génese deste processo encontra-se uma intenção que legitima a apropriação do objeto, retirando-o da sua circulação natural e transformando-o num símbolo. Neste sentido, os objetos musealizados são reinscritos em regimes de valor, inteligibilidade e memória, passando a operar como mediadores. Este gesto, profundamente marcado pela relação entre identidade e posse, participa na produção do poder através do visível.
Vou lá visitar
24.06.2026 | por
A prática de Rosana Paulino insere-se num movimento mais amplo da arte contemporânea internacional que, a partir de cerca de 1990, passou a tomar o arquivo histórico como material crítico. Hal Foster, no ensaio An Archival Impulse (2004), identifica uma geração de artistas contemporâneos como Christian Boltanski, Walid Raad e Tacida Dean que trabalham e recuperam documentos, fotografias e registos institucionais para os reconfigurar segundo outras lógicas de sentido, não para restaurar o passado, mas para tornar legíveis as suas lacunas e violências.
Vou lá visitar
24.06.2026 | por Luiza Calixto Tarasconi
Cabo Verde tem uma relação muito concreta com os limites: repartir o que há, desenrascar o que falta. Num sistema que continua a identificar progresso com crescimento infinito - e das crises ecológica e social produzidas por esse mesmo modelo -, o talento de países pequenos e sem recursos como Cabo Verde, capazes de transformar sobrevivência em comunidade, é uma inspiração. Um modo de lutar por condições que talvez venha da experiência histórica de sobreviver à fome. Da prática de djunta mon - de partilhar mãos e recursos, inter-ajuda entre vizinhos, parentes e emigrante. A música, que transformou perda e dor em coisas bonitas. Das mulheres que sustentam praticamente a economia doméstica durante décadas de emigração masculina. Toda essa energia não se reduz aos diagnósticos e político-sociais-económicos e aos indicadores internacionais.
Vou lá visitar
24.06.2026 | por Marta Lança
Em fred, ska batista espreita por uma janela semi-cerrada para corpos que só parcialmente se deixam revelar na fotografia. Nesta entrevista-conversa, falámos sobre uma lisboa desaparecida e em desaparecimento, das armadilhas representativas dos discursos que rodeiam os corpos queer, da prática de uma fotografia que não pode ser um olhar exterior e de uma fotografia ‘desenrasca’ para corpos que, também eles, se vão desenrascando.
Cara a cara
23.06.2026 | por p. feijó e ska batista
O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação. Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes. O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio. O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.
Mukanda
23.06.2026 | por Maria Giulia Pinheiro e Gisela Casimiro
Pouco me importam as críticas ao género ou a sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda os autores de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como faz, por exemplo, a personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. Na pior das hipóteses, servirá como exercício de aceitação.
Mukanda
23.06.2026 | por Marta Lança
Seis artistas foram convidados a desenvolver obras inéditas a partir de uma investigação nos arquivos das missões científicas coloniais realizadas na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique entre as décadas de 1930 e 1950. A exposição apresenta o resultado de vários meses de pesquisa nas reservas do museu, através de diferentes linguagens artísticas, propondo uma reflexão sobre o papel do museu enquanto repositório de memórias e patrimónios africanos.
Vou lá visitar
23.06.2026 | por vários
O livro reconstrói a formação do Vale da Amoreira como expressão das grandes transformações sociais, políticas e económicas do Portugal contemporâneo – e da Margem Sul de Lisboa em particular. Localizado no concelho da Moita, o bairro nasceu do cruzamento entre industrialização e império, êxodo rural e urbanização acelerada, migrações internas e fluxos populacionais associados à descolonização. Trabalhadores vindos do interior rural, retornados, refugiados e imigrantes africanos convergiram neste território nos anos 1970, num processo marcado pela precariedade das políticas públicas de habitação e pelo improviso das ocupações de casas.
Cidade
22.06.2026 | por Elsa Peralta, Max Ruben Ramos e Bruno Simões Castanheira
Passadas as celebrações dos cinquenta anos de independência e conquistado esse lugar de respeito internacional, as interrogações internas são muitas. O que fazer com o sucesso democrático? A estabilidade é muito boa, mas não basta. A quem chega o crescimento e a prosperidade? Se há salários de trabalhadores hoteleiros que equivalem ao preço de uma noite nesse mesmo hotel, a quem beneficia afinal o turismo, a única indústria nas ilhas? Existe um pensamento estratégico sobre cultura ou esta tem sido tratada como mero ornamento? A língua materna continuará a ser tolerada como «língua dos afetos», institucionalmente secundarizada? Há condições para a juventude ficar nas ilhas ou segue no vapor di imigrason? A diáspora é apenas fonte de remessas e fábrica de saudades, ou será chamada a participar realmente na reinvenção do país?
A ler
22.06.2026 | por Marta Lança
Um cadáver coberto por uma caixa de cartão, enquanto cães lhe disputam os restos, persiste como uma espécie de fantasma que assombra o enredo. Sem fazer da morte um espetáculo, "Agente Secreto" (2025), de Kleber Mendonça Filho, organiza-se em torno desse espectro.
Afroscreen
21.06.2026 | por Leonel Matusse Jr.
Ando assustado, a convencer-me que não. Leio sobre a alegria da afirmação, sobre o trabalho positivo de meter uma pedra à frente da outra, de ser a única maneira de a mudança ter um chão que dê para dançar. Ando num estiramento entre o que temo e o que quero, fico demasiado encostado a mim, só quando me afasto sei onde estou.
Mukanda
18.06.2026 | por Ricardo Norte
O desaparecimento físico do mais internacional dos técnicos angolanos – detentor de um currículo que lhe valeu uma homenagem na primeira edição do DOCLuanda, bem como a atribuição do Signis Award e do Prémio Sophia – deixa um vazio impossível de colmatar na paisagem cinematográfica contemporânea. Sem perder de vista a dimensão transnacional do seu trabalho, À Escuta de Angola com Gita Cerveira propõe revisitar parte da filmografia realizada no e sobre o país que o viu nascer, evidenciando o seu percurso por várias fases produtivas do cinema nacional e um trabalho indelevelmente marcado pela mestria que – na captação, direção ou mistura de som – sempre soube imprimir às obras a que ajudou a dar forma.
Afroscreen
18.06.2026 | por Sofia Afonso Lopes
"Novas Narrativas de Caça" não precisa de ser a antologia perfeita. Nenhuma primeira abertura precisa de atingir tal fasquia. Mas a série nasce de uma ancestralidade de arquivos queimados, línguas interrompidas, bairros filmados por outrém, corpos mal traduzidos, talentos sem sala, críticas atrasadas, televisões distraídas. E quando nasce assim, e no lugar certo e diante de um público que responde, passa de mero episódio a alicerce cultural.
Afroscreen
14.06.2026 | por Pedro José-Marcellino aka P.J. Marcellino
Giovani tropeçou na morte à saída da discoteca. Por vezes, a existência é uma embriaguez permanente. Ser negro e estrangeiro é maldição a mais. Lembrou-lhe a derradeira paulada que levara da vida naquela triste noite de dezembro. Lembrou-lhe as mãos cobardes dos quinze diabos. Giovani era um artista. Só sonhava com mornas. Compor e cantar repertórios de adoração a um deus que fosse mais justo e imparcial. Por que é que uns têm a bênção de matar e outros de serem mortos? Tombou numa rua qualquer de Bragança. Um negro caído, quem se importa?
Mukanda
14.06.2026 | por Venâncio Calisto