Júlia Barata: desenhar a memória, habitar a contradição

Júlia Barata: desenhar a memória, habitar a contradição "O que tento abordar não é mais do que experiências, pessoais ou próximas, e dilemas que me afetam hoje enquanto mulher, mãe, numa cultura urbana e ocidental, e tentar pôr no papel esses questionamentos e dúvidas." Da infância no Moçambique pós-independência à vida em Buenos Aires, Júlia Barata encontra no desenho uma forma de interrogar a memória, o privilégio e as relações familiares. A propósito da sua adaptação gráfica de Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, conversa com Tiago Lança sobre a representação da violência colonial, os feminismos do quotidiano e a liberdade de contar histórias sem lhes fechar o sentido. Pelo caminho, fala da aprendizagem coletiva na banda desenhada argentina e do desmantelamento cultural que testemunha no país onde vive.

Cara a cara

14.10.2026 | por Tiago Lança e Júlia Barata

Festival Afro-Portugal 26 – Coimbra à procura do “Afro”

Festival Afro-Portugal 26 – Coimbra à procura do “Afro” Tantos hífens, por si, parecem conduzir a uma circularidade viciosa e perder, paulatinamente, o potencial de combate ao racismo, numa altura em que é absolutamente necessário. Por isso, é importante solidificar os modos de afirmação das pessoas negras como sujeitos plenos das diversas comunidades em que se movem e como agentes do seu futuro e das sociedades em que desejam viver. Afinal, quem fala, de quem se fala, para quem se fala? Será possível quebrar a segregação com a criação de mais caixas? Decolonial é o anti-colonial ou o novo colonial?

Vou lá visitar

14.10.2026 | por várias

Baralho de Cartas 42

Baralho de Cartas 42 Um dos aspetos miríficos da ocupação profissional sem patrões é, precisamente, esta sensação doméstica, mas sobretudo poder dispensar os colegas canalhas. Não aturar esses poderes intermédios, os capatazes, os fascistas caga-tacos. Em cada ínfima possibilidade de fugir da mira deles, afastemo-nos dos canalhas, não lhes damos alimento, que apodreçam na sua jaula infecta. Demorei demasiado tempo a identificar os prevaricadores e a proteger a minha preciosa energia das relações tóxicas (à parte a expressão imbecil), é mesmo uma questão de auto-proteção.

Mukanda

14.10.2026 | por Marta Lança

O corpo não esquece, sobre "A Dança das Máscaras", de Sara de Gouveia

O corpo não esquece, sobre "A Dança das Máscaras", de Sara de Gouveia Em A Dança das Máscaras, de Sara de Gouveia, o bailarino Atanásio Cosme Nyusi atravessa a história de Moçambique com o corpo, a voz e a capacidade de fabular. Entre a violência colonial, a libertação e a guerra civil, o Mapiko surge como uma arte que guarda memórias, transforma destinos e se reinventa na transmissão entre gerações. Preservá-la implica assegurar condições para que outros continuem a dançar.

Palcos

13.10.2026 | por Marta Lança

"Terceira Metade": Entre o mel e o veneno: os perigos do doce encanto da língua portuguesa

"Terceira Metade": Entre o mel e o veneno: os perigos do doce encanto da língua portuguesa Incorporo a lusofonia como um debate, algo que se distancia de qualquer substância, um foco virtual que, tendo como referência a língua portuguesa, adquire uma dinâmica própria em distintos contextos nacionais. Longe de estarmos diante de um pensamento consensual, a lusofonia paira sobre situações de tensão que colocam estes distintos contextos em contato. (Artigo de 2011)

A ler

12.10.2026 | por Omar Thomaz Ribeiro

Chão comum

Chão comum De tanto ser invocado no discurso político, o «chão comum» parece uma evidência. Mas quem cabe nele e quem fica de fora? Entre a promessa de consenso e as práticas de partilha, há diferenças decisivas. Das reflexões de Silvia Federici e José Castiano às hortas urbanas, às redes de cuidado e aos espaços culturais independentes, interessa-me pensar o comum como algo que fazemos juntos: uma construção inacabada, atravessada por conflitos, responsabilidades e relações de interdependência. Um chão que só existe enquanto houver quem o faça.

Mukanda

11.10.2026 | por Marta Lança

Entre os Escombros, as utopias e os amanhãs

Entre os Escombros, as utopias e os amanhãs A falta de professores, a precariedade dos trabalhadores e a degradação dos edifícios escolares revelam décadas de falta de planeamento e investimento na escola pública. Nas periferias, as desigualdades tornam-se ainda mais profundas. Entre serviços cortados e direitos por cumprir, milhares de profissionais continuam a chegar à escola carregados de utopias e amanhãs.

A ler

09.10.2026 | por Maria Prata

“Nome”, um sublime retrato filmográfico do descaminho da Guiné-Bissau

“Nome”, um sublime retrato filmográfico do descaminho da Guiné-Bissau “Nome” é um filme que vai ao mais fundo baú da memória colectiva guineense resgatar os feitos gloriosos de uma luta que ensinou ao mundo a lutar mesmo quando as forças parecem inexistentes para isso; a força da união e o sentido da fraternidade que permitem às pessoas manter a sua humanidade e amar mesmo em tempos de guerra e perante morte anunciada. É também um acto de coragem de um cineasta que viveu e participou na luta com as armas que o Partido lhe confiara – e que tão bem tem honrado – ao retratar a tragédia de um país iniciada por aqueles que souberam guiar o povo para a sua libertação do colonialismo.

Afroscreen

09.10.2026 | por Sumaila Jaló

Saliu Djau: de Bissau a Lisboa, uma vida de participação cívica

Saliu Djau: de Bissau a Lisboa, uma vida de participação cívica Hoje tem “a noção de que há desinformação em todo o lado, incluindo na Guiné”. Sobre as narrativas que visam imigrantes e afrodescendentes em Portugal, começa por avisar que não é um tema que tenha trabalhado diretamente. Dá, ainda assim, a sua leitura. Uma das mais presentes, sobretudo em momentos politicamente intensos, “é a tentativa de associar os imigrantes com a criminalidade ou com a dependência perante o sistema da Segurança Social”. São “narrativas falsas que tentam criar sentimentos de ódio”, considera.

Cara a cara

08.10.2026 | por Mariana Moniz

Baralho de Cartas 41

Baralho de Cartas 41 Cioran escreveu que no meio de um tal sufoco é “reconfortante contemplar um mendigo. Ele, ao menos, não mente aos outros nem a si próprio: a sua doutrina, se é que a tem, encarna-a; não gosta do trabalho e demonstra-o; como nada deseja possuir, cultiva o seu despojamento, condição da sua liberdade. O seu pensamento resolve-se no seu ser, e o seu ser no seu pensamento. Falta-lhe tudo, é ele próprio, dura: viver imediatamente a eternidade é viver apenas um dia de cada vez. Por isso, para ele, os outros são presa da ilusão. Se depende deles, vinga-se observando-os, especialista que é do reverso dos sentimentos «nobres». (...) Porque é preciso, a todo o preço, impedir aqueles que têm demasiado boa consciência de viver e morrer em paz."

Mukanda

08.10.2026 | por Ricardo Norte

Fanon e Palestina, “Os Condenados da Terra” do Século XXI

Fanon e Palestina, “Os Condenados da Terra” do Século XXI As palavras de Frantz Fanon encontram na Palestina contemporânea a sua expressão mais vívida e dolorosa. Sob o olhar omisso e complacente da comunidade internacional, a população palestiniana constitui, nos séculos XX e XXI, a própria encarnação dos condenados da terra, o povo mais esquecido do planeta, abandonado pelas estruturas de governação internacionais e submetido às dinâmicas continuadas de um colonialismo de povoamento.

Jogos Sem Fronteiras

07.10.2026 | por Pedro Oliveira

Cartas africanas do outro lado da URSS

Cartas africanas do outro lado da URSS Em 'Je t’embrasse, Gilbert', Sandra Muteteri Heremans acompanha um estudante ruandês na União Soviética dos anos 1970. Entre a descoberta da neve, as discussões políticas e a distância de casa, as cartas devolvem espessura a uma história de circulação africana que também encontrei, muitas vezes, nos testemunhos de antigos estudantes angolanos.

Afroscreen

07.10.2026 | por Marta Lança

O direito a um futuro em Congo Boy e Paradise

O direito a um futuro em Congo Boy e Paradise Em vez de procurar aquilo que África tem para nos ensinar, como se as suas vidas existissem para melhorar a nossa consciência, procuro compreender o que está em disputa para quem vive estas histórias. O futuro de Robert não é uma lição de esperança nem a vida de Kojo uma prova destinada a confirmar ou resolver a culpa ocidental. O cinema começa a libertar-se dessa relação quando lhes reconhecemos o direito a querer, a contradizer-se e a construir um futuro que não tenha de passar por nós.

Afroscreen

07.10.2026 | por Marta Lança

Cabo Verde: partidos, por todos, e por quem constrói o cidadão

Cabo Verde: partidos, por todos, e por quem constrói o cidadão Há precisamente cinquenta anos, entre a comoção do poder estatal para se fazer valer perante o "povo" e a cooperação internacional e os ideais revolucionários do Partido-Único para a construção do "novo homem", uma possível via de atuação no setor da construção civil foi experimentada. Um modo de fazer construção civil que, com todas as suas limitações, tinha uma relação direta com a formação do que se considerava ser, naquele momento histórico, a necessária sociedade civil.

A ler

07.10.2026 | por Hugo Lopes

Nayr Faquirá: “Eu sou quem afirmo que sou, não quem as outras pessoas dizem”

Nayr Faquirá: “Eu sou quem afirmo que sou, não quem as outras pessoas dizem” Na adolescência, quando ainda não sabia bem onde cabia, Nayr Faquirá percebeu que tinha uma coisa que ninguém lhe podia contestar: a voz. Aos 28 anos, a cantora, compositora e produtora luso-moçambicana, natural de Sintra, continua a construir uma carreira sem editora, dá aulas num pequeno estúdio que montou na garagem dos pais e move-se numa indústria onde, diz, uma mulher tem de impressionar três vezes mais para ser aceite.

Cara a cara

06.10.2026 | por Mariana Moniz

Michèle Firk - uma vida inteira contra o império

Michèle Firk - uma vida inteira contra o império Um dos filmes mais especiais da seleção da Festa do Cinema Francês, Une vie manifeste, de Jean-Gabriel Périot, recupera o percurso de uma crítica de cinema e militante revolucionária que ligou a sua liberdade à dos outros. Da França ocupada à luta pela independência da Argélia, de Cuba à Guatemala, acompanhamos uma mulher para quem olhar, escrever, amar e agir faziam parte da mesma exigência de viver.

Afroscreen

03.10.2026 | por Marta Lança

«Não celebramos as pequenas mudanças»

«Não celebramos as pequenas mudanças» E se, de repente, nada mudasse? Em E Tudo Mudou, Carla Fernandes parte da observação dos filhos para convidar crianças e adultos a reparar nas pequenas transformações do quotidiano. Nesta conversa com o programa Bem-Vindos, a autora fala da literatura infantil como espaço de partilha, descoberta e formação emocional, onde os adultos também aprendem. Aborda ainda a colaboração com o ilustrador Alexandre Matos, que deu corpo à Mudança através de referências do candomblé, e a importância de escrever sobre temas profundos numa linguagem simples, sem perder a poesia.

Cara a cara

01.10.2026 | por Carla Fernandes

«Maçonaria», de Azagaia, e a reescrita da narrativa colonial em África

«Maçonaria», de Azagaia, e a reescrita da narrativa colonial em África Em «Maçonaria», Azagaia transforma a linguagem da oração numa denúncia da cobiça, da exploração e das alianças entre religião e poder. Partindo da memória da morte do rapper e do encontro da sua própria escrita com a obra do músico moçambicano, Venâncio Calisto propõe uma leitura da canção como reescrita da narrativa colonial em África e afirma a força de uma poesia que continua a interpelar o presente.

Palcos

01.10.2026 | por Venâncio Calisto

Baralho de Cartas 40

Baralho de Cartas 40 Escrevo-te numa carruagem escaldante do Intercidades, no centro do Algarve, com 30 minutos de atraso e o ar condicionado avariado. Faro está do lado de fora da janela, e eu corri o Barlavento e o Sotavento em menos de uma semana. Dá para sentir a forma s base de um país, aqui mesmo a cutucar Marrocos. (Espera, vou mudar de carruagem, não se aguenta o calor). O Algarve é o faroeste do esquema, dos que tentam orientar-se, do sem recibo, do que se foda o Estado afinal «os políticos são todos iguais» e viva a Chegolândia. Os foras da lei são todas as escalas na terra das transações e da extração de recursos, naturais e humanos.

Mukanda

29.09.2026 | por Marta Lança

«Sinto que vivi o meu 25 de Abril em Brasília», entrevista a Rita Brás

«Sinto que vivi o meu 25 de Abril em Brasília», entrevista a Rita Brás Em 'O Pai Tá On', antes de ouvirmos o presidente, escutamos quem fala de comida, trabalho, saúde e educação, mas também do medo vivido durante o governo Bolsonaro e da esperança de voltar a ocupar a rua. A festa faz-se de cânticos, encontros fortuitos, lideranças indígenas, bordados levados de Belo Horizonte e histórias familiares. Nesta entrevista, a realizadora conta como esses encontros orientaram a filmagem e a montagem, por que deu tanto espaço às vozes da multidão e o que sentiu ao regressar às imagens quase quatro anos depois.

Afroscreen

28.09.2026 | por Marta Lança e Rita Brás