“O rosto que falta” é um pungente texto sobre a guerra, mas sobretudo sobre a titularidade da experiência das situações traumáticas ligadas ao conflito armado, e nomeadamente ao fim do colonialismo português em África.
A ler
12.11.2019 | por Felipe Cammaert
A experiência da participação neste evento de indefinida colocação historiográfica, quer pela denegação que oficialmente o caracterizou, quer pela radical reformulação geopolítica do país que a partir dele se engendrou com a descolonização, tornou a guerra colonial um dos mais recalcados e complexos, mas também um dos mais trágicos eventos da contemporaneidade portuguesa que ainda hoje nos interroga.
A ler
30.03.2019 | por Margarida Calafate Ribeiro
A grande maioria das vezes não é um discurso de ódio aberto; é um discurso em que se naturaliza a diferença racial e em que se entende o outro, muitas vezes português mas negro, como inferior ou como alguém que é suspeito de alguma coisa – veja-se a relação que as polícias têm com as periferias racializadas.
Cara a cara
01.02.2019 | por Miguel Cardina
Quarenta e quatro anos depois do final da Guerra, o 10 de Junho, para os antigos combatentes que o comemoram em Belém, é, acima de tudo, o dia em que se reencontram aqueles que um dia combateram juntos em África para homenagearem os seus companheiros que por lá morreram. Em 2018 este encontro repetiu-se pela 25ª vez. Repetiu-se a cerimónia inter-religiosa. Proferiram-se discursos. Leu-se a mensagem enviada pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa que se encontrava nos Açores a comemorar o outro 10 de junho. Adriano Moreira não discursou, mas encontrava-se entre os convidados de honra que, todos os anos, prestam esta homenagem aos combatentes.
A ler
13.07.2018 | por Fátima da Cruz Rodrigues
A um, que estava muito ferido, eu disse: “A tropa não te pode fazer nada, o que queres antes de morrer?” Ele pediu água, eu disse ao soldado para ir buscar água mas fiz-lhe um sinal para não ir, não seria necessário. Peguei na espingarda-metralhadora FBP, que não era fiável, fiz um disparo para o matar, mas saiu ao lado. Disse ao soldado: “Ó 235, mata o indivíduo”. O soldado encostou-lhe a Mauser à testa e matou-o. A partir daqui, fiquei a pensar que não o devia ter feito, mas por outro lado o indivíduo não se podia safar, morreria à mesma…
Mukanda
24.06.2018 | por Vasco Luís Curado
Os atos sexuais que geraram aqueles filhos são tendencialmente vistos como despojados de violência ou interesse; o tom de pele mais claro, denunciador de atos sexuais com o colonizador, foi motivo de ostracismo social e frequentemente familiar; do lado de cá, os pais tentam maioritariamente esquecer ou resistem aos contactos, ciosos dos impactos da descoberta na sua família.
A ler
10.06.2018 | por Miguel Cardina
É entendendo que a guerra foi uma guerra, mas foi também o desfecho sangrento de um processo historicamente mais amplo, que em Portugal se poderá avançar no questionamento das imagens reconfortantes sobre o seu passado colonizador.
A ler
18.10.2017 | por Miguel Cardina
Paulo Faria escolhe para tema autoral a revisitação da guerra colonial que, não tendo vivido, reconhece como um momento de radical mudança para um pai a quem fez poucas perguntas e com o qual se quer agora confrontar, juntamente com seus demónios entrincheirados. Com esta premissa se tece uma espécie de ficcionalização heterobiográfica: ficção porque, embora o autor e narrador tenham circunstâncias comuns, como serem tradutores e filhos de pais médicos que serviram como oficiais milicianos em Moçambique, a distância dos nomes e episódios reduz porventura os danos colaterais da autodescoberta, ajudando a manter o enredo livre de pressões; heterobiográfico porque não só o narrador se projeta na vida paterna como a reconstrução desta aparece afinal refratada pelas histórias de vários camaradas de campanha do pai, ocupando a voz de cada um deles um capítulo desta obra.
A ler
28.11.2016 | por Margarida Vale de Gato
O Tarrafal tem de ser compreendido no sistema de campos que o colonialismo português activou ou reactivou justamente para conter as rebeliões, não pode ser visto individualmente, mas no conjunto de campos e prisões de Angola, Moçambique, Guiné, das antigas colónias mas também das cadeias portuguesas onde estavam presos políticos africanos.
Cara a cara
25.02.2016 | por Marta Lança
O projecto “Angola nos Trilhos da Independência“ tem atiçado a curiosidade de muita gente. Foram 57 meses, 900 horas de material audiovisual recolhido em território angolano e internacional, que contem cerca de 700 depoimentos de protagonistas da luta anticolonial. Tudo isto destinado a preservar a memória de um período na História que diz respeito a Angola e à luta de todos os povos sob ocupação colonial cujas memórias padecem ainda de ser registadas e pensadas.É uma epopeia de grande fôlego que implicou muitas viagens, adversidades, muita poeira e entusiasmo. Através dele, a equipa (e futuramente nós) ficou a conhecer um país sob todas as suas diversas camadas. O resultado sai em 2015 na senda das comemorações dos 40 anos da Dipanda.
Afroscreen
07.01.2015 | por Marta Lança
É essa filiação num movimento cultural, político e social com raízes profundas em sectores fundamentais da sociedade angolana que darão ao MPLA a capacidade de sobreviver, nos anos futuros, às duras provas que encontrará para se afirmar enquanto movimento de libertação nacional com legítimas aspirações a representante do povo angolano.
A ler
22.02.2013 | por Ricardo Noronha
Amílcar Cabral era já, desde essa altura, um sério problema para autoridades colonias de Bissau e da metrópole. Aliás, pelo menos desde 1972, o nome do general Spínola é falado para a presidência da República, e, por isso, não pode regressar derrotado. Era para ele imperioso tudo fazer para inverter a situação militar, pelo que não é de descartar a hipótese de que o assassinato de Amílcar Cabral se enquadrasse nessa espécie de obsessão que levaria o Exército português, no início de 1973, logo depois do seu assassinato, a realizar uma série de violentas operações militares contra as regiões libertadas e algumas bases do PAIGC no Sul que, no entanto, vieram a revelar-se desastrosas.
A ler
04.02.2013 | por Leopoldo Amado
António Valdemar assinala em três dos painéis o papel de Adriano Moreira na manutenção do regime colonial, recordando o seu papel como subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, entre 1960 e 1961, passando nesse ano a ministro do Ultramar, onde permaneceu em funções até 1963.
Nesse período, recusadas as propostas de Nehru para uma entrega negociada do que o regime denominava de Estado da Índia, deu-se, em dezembro de 1961, a anexação dos territórios de Goa, Damão e Diu.
Vou lá visitar
05.04.2012 | por António Melo
A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História.
A ler
06.01.2012 | por Ricardo Riso
É com intensa guerra de repressão em Angola, particularmente no norte, corpos expedicionários a partir de Portugal para Angola, e a PIDE a procurar controlar os africanos que se encontravam a estudar em Portugal, que se dá este acontecimento extraordinário: em Junho de 1961 saem de Portugal cerca de cem jovens das ex-colónias africanas, uma parte significativa deles, em duas acções que os levaram a atravessar o rio Minho, e todo o norte de Espanha, rumo a França, e a uma participação activa na longa guerra de libertação nacional dos seus países, que os conduziu à independência. O resultado foi a incorporação nos movimentos que lutavam pela independência de jovens que viriam a ser presidentes, ministros e intelectuais.
Mukanda
02.08.2011 | por Associação Tchiweka de Documentação
Para as acompanhantes dos militares portugueses a guerra colonial (1961-75) foi uma aprendizagem. Muitos depoimentos dão conta do momento emancipatório na vida destas mulheres, pela saída de um país conservador para lugares modernizados e multiculturais, com costumes mais brandos, vida social descontraída e maior liberdade, onde entravam com segurança no mercado de trabalho. Ou seja, apesar da guerra, «África era uma libertação», ou uma expansão, física e mental, uma experiência formativa e humana: «Vim de Angola uma mulher mais forte».
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15.11.2010 | por Marta Lança
é no entretecer desta disputa ideológica que o filme vai evocando os factos e figuras que marcaram a construção da nossa identidade como povo. De forma exemplificativa, a própria figura de Viriato é perspectivada como a de um “patriota trágico” , que não compreendia as vantagens civilizadoras da romanização. Por analogia histórica, serve o episódio de Viritato para despoletar uma discussão mais actualizada sobre o sentido da herança colonial em territórios africanos.
Afroscreen
20.09.2010 | por Mariana Brito
No princípio é a vontade de desenterrar a História oficial para escovar a mitologia pátria a contra-pêlo. Da epopeia à tragédia, o programa de NON mais não é do que um virar de Os Lusíadas ao contrário. Trata-se de pesar o destino da “primeira nação da Europa”, não à luz das suas vitórias militares – e a História, como o nota Benjamin, costuma ser contada pelos vencedores –, mas a partir das batalhas perdidas.
Afroscreen
20.09.2010 | por António Preto
Se, aparentemente, o discurso da mulher do capitão, Helena, alcunhada de Helena de Tróia pela sua beleza, parece não ser mais do que a expressão do pensamento cruelmente racista do marido, a sua submissão não é total. E é nesse jogo de aparente adesão ideológica àquela guerra que Helena vai revelando os atropelos que os militares cometem e a cumplicidade do tenente Luís, marido de Evita, nos massacres da população autóctone.
Afroscreen
10.09.2010 | por Mariana Brito
Foi preciso esperar mais de 30 anos para que as feridas abertas pelo retorno dos colonos em África começassem a sangrar. Muitos decidiram agora escrever sobre o estigma de "retornado". Fundamental para se perceber o que é ser português, hoje
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19.08.2010 | por Raquel Ribeiro