Descolonizar a descolonização - parte 2
IDENTIDADE
Entretanto, aqui, por esta banda, na Europa, parece que a identidade deixou de ser um lugar de “mesmidade” ou de conjunção ou convergência de pensamentos e práticas, de ideias e de ideologias, de sonhos e de aspirações, de comunhão e de comunidade, para se fixar no sentido de idêntico: frequentemente, reduzida à cor da pele. Os discursos têm sido levados constantemente para a questão racial, dividindo o mundo em dois blocos: o branco e os “bipoc”, termo que ultimamente se encontra em todo o lado, basta chutar uma pedra.
A primeira vez que me perguntaram se eu era BIPOC, eu respondi: “não sei, penso que sou hétero”. People of Color, era o que se costumava dizer, POC. De repente veio BIPOC pipocar nas comunicações, eu pensei: POC, BI POC, duas vezes POC, deve ser escuro mesmo, se calhar seria assim que chamaríamos aos bijagós na Guiné-Bissau. BIPOC é um acrónimo americano, nem digo inglês, para Black, Indigenous, People Of Colour, como se toda essa gente partilhasse das mesmas questões e dos mesmos problemas, como se todas fossem aliadas e, basicamente, opondo-as ao branco como inimigo comum.
A grande questão é que há 50 tons de branco. Em 2020, New York Times fez uma tabela onde os portugueses e os espanhóis apareciam como não-brancos, portanto BIPOC, e cá em Portugal caiu o Carmo e a Trindade. Até alguns pretos reagiram, porque se os portugueses brancos não eram brancos, então o que é que andamos a discutir há tanto tempo por cá? E quem pensa que são os sacanas dos americanos para definir, ou pensar que definem, quem são brancos e quem não? Defendemos, alguns pretos, a branquice dos nossos conterrâneos como deve ser. Contudo, usa-se BIPOC à discrição, sem notar que é um termo definido por americanos, que no contexto deles pode até fazer sentido, mas não é globalizante.
People of Color, ou pessoas de cor, é um termo que desliza em contextos, que não fixa. Na Guiné, pessoas de cor são normalmente as pessoas mulatas, mas quanto mais cor se tem, mais branco se é. Eu sou considerado pessoa de cor em qualquer contexto.
As identidades são normalmente construídas a partir de uma convergência de elementos variados, como valores, práticas sociais, referências simbólicas, heranças culturais e todos outros pontos de afinidades que se podem convocar. A identidade é bem dinâmica e plural, suponho eu, devia ser um espaço onde indivíduos e grupos estabelecem pontos de conexão, portanto um espaço passível de transformação. Quero acreditar nisso. Porém, ultimamente há uma tendência para tratar a identidade de modo mais essencialista, como se fosse um atributo estático e imutável, frequentemente definido por uma característica visível e tangível: a cor da pele… ou a sexualidade, que nem sempre é visível.
Por que se insiste em estabelecer pontos fixos num mundo em constante mutação?
A questão da cor da pele, a oposição ao branco, leva a definir tudo o que seja preto como africano, ignorando que há africanos brancos, europeus pretos, americanos indianos e chineses asiáticos. E esta relação entre o preto e África leva também a que toda a multiplicidade cultural africana, todos os milhões de identidades africanas e pretas que convivem ou conflituam dentro e fora de África sejam consideradas simplesmente como um bloco monolítico: a cultura africana, a identidade africana, o africanismo.
Entende-se muito bem que nas Europas, nas Américas, nos Brasis e outros mundos brancos, a fixação na cor da pele, ou numa característica específica, pode ser consequência de resistência a formas de opressões históricas e sistémicas. A identidade racial é uma maneira de se fortalecer, de criar um movimento que defende e posiciona o preto como ser humano e sonhante preso em espaços de opressão. O problema surge com autoboicotes que colocam o preto numa redução essencialista do ser: corpo negro.
rostos, Toy Boy
CORPOS NEGROS
Em vários discursos decolonialistas, que muitas vezes se confundem com discursos antirracistas, ouve-se bastante e frequentemente o termo corpos negros. Vou observar que entendo decolonialismo e antirracismo como espaços que podem convergir, mas fundamentalmente bem diferentes. Por exemplo, a decolonialidade é uma teoria que surgiu lá das Américas do Sul, numa altura em que o poder era latino-americano, mas ainda assim branco, e que visava mais a desocidentalização ou deseuropeização do poder do que a desbranquização do mesmo.
Em termos históricos e práticos, por exemplo, quando os Estados Unidos tomaram a sua independência, descolonizaram-se da Inglaterra, estabeleceram estruturas próprias não monárquicas e criaram eles mesmos a sua própria colonização. O Brasil fez o mesmo quando o filho de rei de Portugal, D. Pedro, decidiu ser ele o primeiro rei do Brasil. “Descolonizou-se” de Portugal e conduziu a sua própria colonização desse território. Por isso é sempre irritante ouvir brasileiros brancos a chorar e a dizer que Portugal os colonizou, sem se lembrarem que são herdeiros diretos desses colonizadores, e que esse choro e lamento devia ficar para os indígenas e para os pretos que foram para lá levados à força e dominados ainda hoje pelos próprios brasileiros brancos (caros amigos brasileiros). Brasil é uma continuidade colonial portuguesa e o grito de Ipiranga não passou de uma tosse. Os brasileiros lamentarem-se da colonização portuguesa é o mesmo que ouvir os americanos a lamentarem-se da colonização inglesa… a propósito, os americanos não o fazem. Nem mesmo o fazem os nativos-americanos, os indígenas, que ainda continuam colonizados, embora tenham a nacionalidade do país colonizador.
Enfim, voltando ao básico, o antirracismo é centrado na ideia de tirar as pessoas pretas do domínio da desumanização branca (a branquitude aparece aqui como um conceito, não necessariamente a pessoa branca, mas os pretos como pessoas mesmo). Neste texto centrei-me no preto no Ocidente, ou na Europa, porque há pretos racializados na China, na Índia, no Israel, no Paquistão, e na própria África. E não estou a falar da África do Sul, mas da própria Guiné-Bissau. Algumas pessoas chamam a isso de colorismo, e eu digo que o colorismo é o racismo sem pedigree. A estrutura do dito colorismo é racial, baseada simplesmente na cor da pele, portanto é racismo. Mas enfim… podemos discutir isto noutra altura convocando a questão do poder.
Quando falamos da libertação dos negros, fala-se de corpos negros, sim, porque a descolonização é sobre libertar e soberanizar territórios e o corpo é também um território, vasto e cheio de mistérios. O negro foi até mercadoria e mais-valia. Todavia, o uso acrítico e exagerado do termo corpo negro e da definição de pessoas negras como corpos negros, como se o negro fosse desprovido de ideias, de sonhos, de ambições, de expectativas, de frustrações e de alma, esvazia o discurso. O negro, como corpo, passa a ser só uma máquina, um instrumento com voz, como teria dito Cícero. Aliás, a limitação do negro a um corpo até vai de acordo com a definição do racismo científico e religioso que caracterizava o preto com um ser sem pensamento e sem alma, portanto só um corpo animado, equiparável a um cadáver ambulante. Assim, corpo negro é um pré-cadáver. Definir-se como um corpo simplesmente reforça esses estereótipos racistas, e não inova sequer, porque os racistas nunca tiveram dúvidas de que o negro é só um corpo, portanto estamos atrasados no “descobrimento”.
A vaca é também um corpo, e é isso que chateia os veganos, pois é por a vaca ser apenas entendida como um corpo que facilmente vira bife.
do workshop 'migro ergo sum, 2022'
Do iluminismo racista, que considerava a mente e o pensamento como a parte mais iluminada do ser humano (coisa que os pretos não tinham, logo nem podiam ter história), ao decolonialismo e à negritude, que consideram o corpo tão importante quando a mente, chega-se a um essencialismo do corpo negro, como se o negro fosse só corpo e nada mais do que corpo. Estou a repetir-me.
Não posso falar de África, porque só conheço a Guiné-Bissau, e mesmo essa, mal e parcamente… ahhh, prefiro mesmo dizer “mal e porcamente”… Na Guiné não nos chamamos de corpos negros e, tirando alguns iluminados que estudaram nas academias ocidentais e aculturados a ativismos europeu, que aprenderam aqui ou no Brasil esses conceitos e que os repetem quase acriticamente, o preto guineense não se define como corpo negro. Porém, a filosofia do kriol define o ser humano como corpo. O preto, o branco, o chinês, o indiano, o javanês, somos todos corpos. Para perguntar em kriol, “como estás?”, perguntamos “kuma di kurpu?”, literalmente “como está o teu corpo?”, mas também a pessoa, o ser humano, o eu reflexivo define-se como cabeça. Por exemplo, para dizer, “falo comigo mesmo”, digo “falo com a minha cabeça”, “suicidar-se” é “matar a cabeça”. A pessoa, para o kriol, é feita de corpo e de cabeça, de carne e de mente, do material e do imaterial. A pessoa é “pekadur”, uma denominação de viés católico, pecador, mas que entende o humano como um ser falho. Na Guiné creio que sabemos que não somos só corpos, os tantos toka-tchur (exéquias festivas) provam-no. Aliás, acho que nem andamos a teorizar sobre isso, a nossa grande preocupação é se será este mês que vão pagar os seis já atrasados. Ou se finalmente vamos conseguir uma marcação na Embaixada para obter o raio do visto. Ou se vamos conseguir o visto e mostrar ao país o número dos sapatos… a expressão significa sair a correr. Vou esticar-me, e espero estar certo, e generalizar que em África não discutimos corpos negros, tal como na Europa, e fora dela, não se discute “corpos brancos”. Que se discute a raça, sim, de várias maneiras.
Representar a“pessoa negr” pelo seu corpo faz dela um ser real, um ser tangível, visível e material, todavia quando o “corpo negro” se contrapõe ao “homem branco”, creio que se sai da parte da realidade palpável para uma mais abstrata, simbólica, porque o “homem branco” não é um corpo, mas uma ideia, um conceito, um símbolo, de tal modo que é possível dizer: “matar o ‘homem branco’ que há em nós”, sem que isso seja um apelo genocida ou raciacida.
O poder é branco, logo o branco é invisível, é o centro, é a norma, a constante que define todas as variáveis. Apesar do branco poder ser identificado pela pele que o veste é um ser que deve ser analisado racional e filosoficamente. Parece que o branco não é um corpo, mas é, por excelência, o ser humano, que define e estampa o selo da humanidade e do direito à vida às coisas existentes, basicamente, é aquele ser que pode garantir aos corpos negros a sua parcela da humanidade. O branco é o tal e o negro é o outro, o subalterno, o branco é o cérebro, o negro é o músculo, o branco é a mente e o negro é o corpo, o branco é o conteúdo e o negro é o contentor. Vamos continuar a alimentar isto?
Na Guiné-Bissau o branco é também um estatuto social, quando alguém começa a usar garfo e faca à mesa, vira branco, quando melhora a sua situação social e adquire bens, hábitos e comportamentos estranhos, só vistos nas novelas ou nos filmes ou nos imigrantes brancos, ou quando começa a ter amigos brancos, amantes brancos e outras brancuras, a pessoa vira branca. E há poder nisso, tanto poder que as famílias até ficam orgulhosas e dizem: “nha fidju, uai, kila branku nan k i kasa!”, ou “branku so k i ta ianda ku el!”. Na verdade, não sei se Fanon não deveria ter escrito “seres brancos, máscaras negras”, porque a meta para a qual vejo o povo a correr na Guiné é “virar branco”.
Considerando isto, chego a achar que chamar ao preto de corpo negro faz sentido, visto que o corpo não se pode alterar, tirando Michael Jackson, mas pode-se branquear a mente e a alma. Aliás, como já tinha dito a branquitude está para além da cor da pele (convido a ler a “carta ao amigo racializado”).
Os temas e os termos que permeiam a discussão sobre a decolonização são criados nos espaços académicos ocidentais e transportados para os espaços artísticos ocidentais, abraçados pelos ativistas sociais no ocidente, e de cá exportados para a África; um filme com demasiadas semelhanças, mas sem pura coincidência, com o processo e movimento coloniais.
O corpo negro é um dos termos aborrecidos, limitantes e limitadores que abundam no discurso decolonial. O facto de ser um termo desconhecido ou quase desconhecido na Guiné-Bissau (sei lá se preciso de estatísticas para afirmar isto), faz-me perguntar: como é que se decoloniza a África sem os africanos estarem envolvidos?
Ler a PRIMEIRA PARTE.