6 falsas novelas
As 6 falsas novelas dão continuidade, da Antígona, à descoberta da obra de um dos maiores escritores do modernismo espanhol, Ramón Goméz de la Serna (1888-1963). Uma obra de incontáveis títulos que justamente merecia a sua publicação por cá. Ainda para mais o escritor andou uns tempos enamorado pelo nosso país quando, nos anos vinte, instalado no seu chalet no Estoril, “El Ventanal”, escreve algumas destas novelas, entre outras invectivas literárias, tendo como musa a visão do mar e dos nostálgicos barcos. Nesta estadia priva com escritores portugueses, nomeadamente Pessoa e, sobretudo, Almada Negreiros com quem frequenta os cafés literários da capital. As atitudes literário-sociais de ambos aproximam-se pela excentricidade e provocação das suas aparições públicas. A experiência de exílio intensificar-se-á posteriormente quando parte para Buenos Aires, fugindo à turbolenta Madrid da Guerra Civil.
As 6 falsas novelas, publicadas inicialmente em 1927 em Paris, encontram explicação na “advertência anedótica” à edição de Buenos Aires (1945), que é aqui mantida. Goméz de la Serna quis, pelo seu carácter inventivo, criar um género novo de novelas curtas, numa fórmula que conjuga a “Providência”, a “legitimidade” e o “bom leitor”. O autor adverte: “já mal me lembro dos estados sonambúlicos em que incorri para as escrever (…) e como consegui dar–lhes simplicidade”, um milagre criativo que acusa advir do subconsciente. E é assim que entramos, avisados, para o delírio de uma escrita ultra-imagética, magnânime, ousada, que recria ambientes, com uma enorme precisão de adjectivos e beleza, de várias culturas do mundo.
“Maria Yarsilovna” é uma homenagem às novelas russas desaparecidas, tão imperiosas na literatura, que evocavam, como o autor recorda no prólogo, “toda aquela estranha e anquilosada vida de outrora”. Um estrangeiro apaixonado por uma fria e distante eslava convive com a sociedade burguesa, plena de hierarquias e criadagens, onde se sucedem as apresentações das “almas irrespiráveis”. Uma forte componente satírica transparece em comentários como: “o casamento é unir um cancro com um rim estropiado e flutuante”(p.22). A mulher estranha e pálida, ao quebrar o verniz da distância, torna-se decepcionante para o estrangeiro, assim como a sociedade russa, mesquinha e passível de humilhação.
Na novela “Os dois marinheiros (falsa novela chinesa)” assistimos ao coração dividido da cândida Niquita pelos marinheiros Yama e Nachauri. As frases sussurradas de amor: “Se tomo tantos bambus de ópio é para me aproximar da lonjura dos teus olhos” (p.37) confluem com sensações de intenso prazer, em que os amantes se encontram “embriagados como num naufrágio”. O mar a nortear os pensamentos, o mar que acalma e o mar que provoca nas palavras proféticas do velho Fu-San: “O mar apaga tanto a ideia de suicídio oferecendo-a sempre em pequenas doses, que quem trata com o mar tem solucionado esse desejo.” (p.43) Na noite da lua vermelha, as descrições de ambientes intensificam os sentidos como uma festa que convida a natureza pagã e as forças primitivas para que se cumpram os rituais do amor e a sua disputa de sangue. Destas forças e da sensualidade descritiva se aproxima a novela “A virgem pintada de vermelho (falsa novela negra)”, em que todos os rapazes desejam a negra mais bela da região, de nome Luma. Nela se desenham os rigores ancestrais - a perseguição violenta à virgem - e a força telúrica das paixões físicas com uma animosidade vivencial que faz vibrar as palavras.
A novela “A Fúnebre (falsa novela tártara)” é das mais surpreendentes. Inicia com uma apresentação sobre a Tartária - “um grande sarilho”, “país para novelistas” que devem saber o que é ser tártaro – e ser tártaro, nesta definição insondável, tem a ver como uma atitude de vida que privilegia o instinto como lei fundamental que subverte a ordem maniqueista da autoridade exterior às pessoas. Os tártaros, na Tartária fictícia do narrador, são um povo sem identidade que não desejam conhecer-se, para não impedir a acção do imprevisto, da arbitrariedade e da tensão em que escolheram viver. Por não quererem dominar a força natural da vida, “a Tartária é retorcida como a cauda de um dragão” (p.65). “A Fúnebre” diz-nos uma verdade simples mas cruel: por muito que se tente afastar a sua iminência, a morte é uma ameaça constante.
A falsa novela alemã, “A mulher vestida de homem”, conta a intrigante história de uma mulher que deseja vingar as mulheres da sua imagem feminina que assusta os homens e por isso quer parecer homem para se aproximar da camaradagem entre iguais. “O filho do milionário” pode ser lida como uma alegoria da sociedade americana, do podre mecanismo do dinheiro que desenvolve os mais hediondos caprichos e crimes através da negligência da posse. O rapaz imoral que protagoniza a história, “sentia-se como deus do insensível que lança o trovão conforme os seus caprichos, inundando com o seu ruído mais céus do que os que inventou o próprio Deus.” (p.179)
Esta diversidade de culturas e ambientes declina fragmentos de humanidade com uma imaginação como uma amplitude invulgar Goméz de la Serna, “o homem dos olhos radiográficos e tirânicos”, como chamou Borges, faz jus neste livro à sua genialidade. O escritor manifesta, coerente à lógica das Greguerías, o dom das grandes revelações do que nos parecia óbvio e por isso não o víamos. A expressão criativa e original dos textos de La Serna parecem dever a um amplo poder de percepção, salientando como figura fulcral a metáfora. Com estas conjugações metafóricas, deixa-se enredar a escrita numa imensa liberdade poética.
O autor de 6 falsas novelas reinventa a linguagem no alcance de novos sentidos e efeitos. Trabalha a indecibilidade libertária das palavras e a electricidade do inconsciente, como um “inventor de novas maneiras de empregar a alma”. A exuberância descritiva destas 6 falsas novelas revela a genialidade de um autor espanhol moderno que é urgente dar a conhecer. Um delírio de ambientes que confirma a liberdade inventiva da escrita de Ramón Gómez de la Serna.
6 Falsas Novelas
Ramón Gómez de la Serna
Tradução: José Colaço Barreiros
Editora: Antígona
195 pgs. 14€
artigo de 2002